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Miguel Torga, o grande poeta de Trás os Montes e Alto Douro.

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Miguel Torga, o grande poeta de Trás os Montes e Alto Douro, sempre presente em cada recanto da paisagem. 

Autor prolífico, publicou mais de cinquenta livros ao longo de seis décadas e foi várias indicado para o Prêmio Nobel da Literatura.

Oriundo de uma família humilde de Sabrosa e nascido em S. Martinho de Anta, filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família e do meio rural. É infinita a sua paixão pelo universo duriense que Torga parece conhecer pedra a pedra.

Ninguém soube, como ele, captar, entender e transmitir, através da escrita, como cada duriense era um herói cujo destino, muitas vezes, seria desafiar a natureza. O seu lado fortemente humanista foi igualmente evidenciado ao longo da vida, enquanto médico.

Ler e reler Miguel Torga será seguramente uma das formas de se entrar nos ambientes agrestes e humildes das gentes transmontanas e, ao mesmo tempo, conhecer uma natureza de uma beleza deslumbrante. 

Fica aqui o convite, para visitar o Douro vinhateiro com as suas Serras e as Fragas de uma paisagem que Miguel Torga retrata como ninguém.  

Actividade Literária de Miguel Torga

É de Torga a famosa expressão Reino Maravilhoso. Um reino que nos envolve, pela escrita, e onde apetece ficar…

A actividade literária de Miguel Torga iniciaou-se em 1928 , ano em que, entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publicou o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade. 

Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. 

A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca era bandeira literária do grupo modernista e bandeira libertária da revolução modernista. 

Em 1930, rompeu definitivamente com a revista Presença, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente. 

A obra de Miguel Torga traduz sua rebeldia contra as injustiças e seu inconformismo diante dos abusos de poder. 

Reflete sua origem aldeã, a experiência médica em contato com a gente pobre e ainda os cinco anos que passou no Brasil (dos 13 aos 18 anos de idade), período que deixou impresso em Traço de União (impressões de viagem, 1955) e em um personagem que lhe servia de alter-ego em A criação do mundo, obra de ficção em vários volumes, publicada entre 1937 e 1939, com críticas ao franquismo que lhe valeram penas de prisão em 1940, durante a Ditadura de Salazar, em Portugal. 

Miguel Torga era também um crítico assumido da praxe e das restantes tradições académicas, chama depreciativamente «farda» à capa e batina. 

Casou-se com Andrée Crabbé em 1940, uma estudante belga que, enquanto aluna de Estudos Portugueses, com Vitorino Nemésio em Bruxelas, viera a Portugal fazer um curso de verão na Universidade de Coimbra. O casal teve uma filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, e divorciada de Vasco Graça Moura. 

Em 1933 concluiu a licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra e voltou às terras agrestes transmontanas, pano de fundo de grande parte da sua obra.

Dividiu seu tempo entre a clínica de otorrinolaringologia e a literatura.  

Miguel Torga também amava a cidade de Coimbra, onde exerceu a sua  profissão de médico a partir de 1939 e onde escreveu também a maioria dos seus livros.  

Após a Revolução dos Cravos que derrubou o regime fascista em 1974, Miguel Torga surge na cena política para apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República (1979), mas não gostava da agitação e publicidade e manteve sempre uma certa distãncia dos movimentos políticos e literários. 

Torga, publicou o seu último trabalho em 1993 e morreu de cancro em Janeiro de 1995. O escritor está enterrado em campa rasa em São Martinho de Anta, no concelho de Sabrosa.  

Os livros de Miguel Torga estão traduzidos em espanhol, francês, inglês, alemão, chinês, japonês, croata, romeno, norueguês, sueco, holandês, búlgaro.

Origem do Pseudónimo "Miguel Torga"

Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha cria o pseudónimo "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno

Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo. Ao lado da sua campa está plantada uma torga, em honra deste seu pseudónimo literário.

O carácter humanista da obra literária de Torga

A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. 

Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração:

Hinos aos deuses, não
os homens é que merecem
que se lhes cante a virtude
bichos que cavam no chão
actuam como parecem
sem um disfarce que os mude. 

Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. 

E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza, malgrado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração.

Obra Poética de Miguel Torga 

  • 1930 - Rampa
  • 1936 - O outro livro de Job
  • 1944 - Libertação
  • 1958 - Orfeu rebelde
  • 1962 - Câmara ardente
  • 1965 - Poemas ibéricos
  • 1997- “Poesia Completa”, volume I, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 479 pg. , ISBN 978-972-20-3371-8
  • 2000- “Poesia Completa”, volume II, Herdeiros de Miguel Torga e Publicações Dom Quixote, Lisboa, 478 pg. , ISBN 978-972-20-3372-5

Obra Poética de Miguel Torga  

  • 1931 - Pão Ázimo.
  • 1931 - Criação do Mundo.
  • 1934 - A Terceira Voz.
  • 1937 - Os Dois Primeiros Dias.
  • 1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo.
  • 1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo.
  • 1940 - Bichos.
  • 1941 - Contos da Montanha. "Diário I"
  • 1942 - Rua.
  • 1943 - O Senhor Ventura. "Diário II"
  • 1944 - Novos Contos da Montanha.
  • 1945 - Vindima.
  • 1946 - "Diário III".
  • 1949 - "Diário IV".
  • 1950 - Portugal
  • 1951 - Pedras Lavradas. "Diário V".
  • 1953 - "Diário VI".
  • 1956 - "Diário VII".
  • 1959 - "Diário VIII".
  • 1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo.
  • 1976 - Fogo Preso.
  • 1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo.
  • 1982 - Fábula de Fábulas.
  • 1999 - "Diário: Volumes IX a XVI"(1964-1993), Publicações Dom Quixote e Herdeiros de Miguel Torga, 2.ª edição integral, ISBN 972-20-1647-4
    • Indice dos volumes
    • Diário IX (15-1-1960/20-9-1963)
    • Diário X (5-10-1963/30-7-1968)
    • Diário XI (2-8-1968/6-4-1973)
    • Diário XII (17-5-1973/22-6-1977)
    • Diário XIII (8-7-1977/20-5-1982)
    • Diário XIV (21-5-1982/11-1-1987)
    • Diário XV (20-02-1987/31-12-1989)
    • Diário XVI (11-1-1990/10-12-1993)

O Diário de Miguel Torga (1941 - 1994), em 16 volumes, mistura poesia, contos, memórias, crítica social e reflexões.

No último volume, diz: 
Chego ao fim, perplexo diante de meu próprio enigma. Despeço-me do mundo a contemplar atônito e triste o espetáculo de um pobre Adão paradoxal, expulso da inocência sem culpa sem explicação.

Peças de Teatro de Miguel Torga 

  • 1941 - "Terra Firme" e "Mar".
  • 1947 - Sinfonia.
  • 1949 - O Paraíso.
  • 1950 - Portugal.
  • 1955 - Traço de União.

Ensaios e Discursos 

Ensaios e Discursos, publicações Dom Quixote,Lisboa, 2001, ISBN 972-20-1681-4 , ‘’tomou por base, respectivamente,os textos da 6.a edição de Portugal,Coimbra, 1993; da 2.a edição revista de Traço de União, Coimbra, 1969; e da edição de Fogo Preso,Coimbra,1989”, conforme nota do editor, página 8.

Prémios atribuídos a Miguel Torga pela sua carreira literária

  • 1969 - Prémio do Diário de Notícias.
  • 1976 - Prémio de Poesia da XII Bienal de Internacional de Poesia de Knokke-Heist (Bélgica). (1977)
  • 1980 - Prémio Morgado de Mateus, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade. (1980)
  • 1981 - Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S.
  • 1989 - Prêmio Luso-Brasileiro Luís de Camões (1989)
  • 1991 - Prémio Personalidade do Ano.
  • 1992 - Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
  • 1993 - Prémio da Crítica, consagrando a sua obra. 

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Mariana Barbosa

Mariana Barbosa
burgau@gmail.com

17 Novembro 2011